01 maio 2007

Porque eu não chorei

Primeiro de maio é dia do Trabalho. Feriado portanto.

É dia de festa, show sertanejo, sorteio de carro (pra quem gosta é um prato cheio, pra mim não, obrigado). Para outros, é dia de ficar em casa (quem me dera), e quando cai numa terça-feira é lindo, porque enforca-se a segunda.
Nesse caso, o feriado vira feriadão, e se torna sinônimo de estrada, praia, sítio, montanha.

Hora de relaxar.

Mas primeiro de maio também é "aniversário" da morte de Ayrton Senna.
Hora de lembrar os feitos históricos (heróicos para alguns) de sua carreira.
Hora de lembrar o quanto a Formula 1 mudou desde então, como ficou mais segura.
Hora de lamentar (para alguns) que estas mudanças não tenham acontecido antes, poupando a vida de Ayrton.

Com os lamentos, as lágrimas. Fico só com os primeiros.
Todo mundo tem uma história pra contar sobre "aquele" dia.
Tenho impressão de que naquele primeiro de maio a Globo teve 100% de audiência, já que nunca encontrei ninguém que capaz de confessar que não estava vendo a corrida.

Eu não vi, e minha história sobre aquele primeiro de maio começa dia 28 de abril.

Eu morava em Vitória-ES, e tinha embarcado há pouco numa canoa furada chamada Amway, comprei o tal do kit e comecei a tentar ficar rico sem fazer força. Como não estava conseguindo, me convenceram a gastar mais uns tantos tostões para uma viagem a São Paulo, no dia 30 de abril haveria uma convenção que iria mudar minha vida. Depois da convenção eu iria ficar definitivamente milionário, e sem fazer força.
No dito 28 de abril me enfiei num ônibus rumo a São Paulo. Depois de agradáveis 16 horas chacoalhando chegamos a São Paulo, já no dia 29, a tempo de irmos para o hotel e nos prepararmos para o sábado, que seria o grande dia.
A conveção realmente mudou minha vida. Me fez ver claramente que não é possível ganhar dinheiro sem fazer nada, e o clima de festa eufórica da convenção me fez enxergar que aquela "viagem" não era para mim.

Dia primeiro sairíamos cedo do hotel, para voltar para Vitória. Só daria para ver a largada. A idéia era chegar a tempo de dormirmos em casa, já que segunda era dia preto na folhinha e todo mundo ia trabalhar.

Fiquei sabendo do acidente de Barrichello no domingo de manhã.
Feio, forte.
Mas Barrichello estava bem, então tudo bem.

Vi a largada, as primeiras voltas, e fui enrolando, esperando virem me chamar.
Senna na ponta, a corrida estava boa. E então vieram me chamar.
Quando peguei o controle para desligar a TV, já sem prestar atenção na corrida ouvi o grito, "Ayrton Senna bateu... Ayrton Senna bateu forte".

Ficamos calados alguns minutos, vendo o que aconteceria em seguida e tentando entender alguma coisa. Quando puseram Senna na ambulância fomos embora.

No ônibus o clima era de euforia, estavam (quase) todos enebriados pela convenção.
Eu já tinha decidido que aquilo não era pra mim, mas também não estava preocupado com Senna, tinha certeza de que ia dar tudo certo.

Na parada do almoço poucas notícias.
Apenas algumas imagens do acidente.
A maioria das pessoas no ônibus só ficou sabendo do acidente neste momento.
A pergunta que mais se repetia era, "teve corrida hoje?"

Paramos para jantar num lugar tão xexelento (é assim que escreve?) que não havia televisão, portanto, nada de notícias sobre o estado de Ayrton. Também não as procurei.
Quando embarcamos novamente depois de jantar o "líder" do grupo, passou fazendo a contagem para ver se não tínhamos esquecido ninguém e pediu atenção. Tinha uma notícia para dar. "Quebrou o ônibus" pensei...

Com a mesma pompa de Cid Moreira ele anunciou a morte de Ayrton Senna da Silva. Lembro que se referiu a Ayrton pelo nome completo.
Teve gente que desabou em choro convulsivo. Os mesmos que mais cedo haviam perguntado se havia tido corrida.

Não chorei. Não vi motivo para chorar.
Estava pensando na minha vida. No que ia fazer segunda.
Teve gente que pediu pra atrasar a saída, para poderem ligar em casa e ver se estava tudo bem. O clima no ônibus mudou de festa-rave para velório. Silêncio absoluto. Aproveitei para dormir.

Quando cheguei em casa naquela noite de domingo o clima também era de velório.
Meu pai nunca foi um grande fã de automobilismo, ou de carros em geral, mas assistia as corridas comigo. Naquele domingo assistiu sozinho, pensando em contar-me como havia sido. Estava com cara de velório também.
Minha mãe já tinha o kit-choro pronto, mas não o usei.
Assisti a matéria do Fantástico, que meu pai gravou para mim, mas não chorei.

Segunda segui minha vida, e os mais próximos criam que eu não havia chorado porque era Piquesista, mas só a segunda parte da afirmação era verdade.

Não chorei simplesmente porque não assisti à transmissão da Globo.
Não passei pela angústia dos incontáveis plantões de notícias que nada noticiavam.
Não comprei jornal na segunda-feira para guardar a "Edição Histórica".
Não transformei Ayrton Senna em algo que ele não era.

Assimilei a notícia como ela realmente era.
Morreu um grande esportista brasileiro.
Uma grande perda, mas não era um parente, não era um amigo.

Não chorei no domingo, nem na segunda, nem durante a semana.
Não chorei nos anos seguintes, nem acho que chorarei.
Assim como não choro no aniversário da morte do Pace, e também não choro no aniversário da morte de João do Pulo.

Foram igualmente gênios ao seu tempo, e tiveram suas vidas ceifadas em acidentes igualmente marcantes, mas eu não os conhecia, nunca sentamos para bater papo, jogar conversa fora.
Foram grandes e lamentáveis perdas, assim como a morte de Ayrton Senna.

Uma pena. E só.

5 comentários:

Ron Groo disse...

É Maximo,eu também não chorei, embora o domingo tenha acabado naquela Tamburello, pois eu não saí pra jogar bola, não fui jogar conversa fora na calçada, e nem fui namorar...parecia que não tinha clima. Todos e tudo estava meio que suspenso. Eu só pensava na cobertura exaustiva que viria a seguir. No possivel cancelamento das transmissões. Egoismo? Não sei se éra... Hoje quando assisto ao filme Grand Prix de 1965 e logo na primeira corrida o piloto da brm bate forte em Monaco e sai da corrida e o piloto da Ferrari ganha e vai comemorar com os outros e é interpelado por uma reporter que lhe pergunta se aquela forma de ganhar, com outro homem quase morrendo. valia a pena ele responde: "Não existe formas de vitoria, só existe a vitória, e quando há um acidente eu piso fundo, pois sei que os outros estarão levantando os seus." Aí meu camarada, eu vejo que a carruagem ia seguir mesmo...Vão-se os pilotos, ficam a competição.
Confuso? É como tudo o que tentei escrever no meu blig e no dos outros blogueiros. Ainda não digeri um gp com duas mortes.

Speeder_76 disse...

Olha, já somos dois. Também estava em viagem naquele dia, e só vi a corrida depois do acidente. Quando vi o carro a ser levado para as boxes, pensei "Deve ter sido o Hill". E não chorei. Aliás, nem abri a boca durante o resto do dia.

Mas digo isto: durante meses, adormecia com a imagem dele na minha mente a bater no muro, vezes e vezes sem conta...

P.S: Também meteste nessa coisa da Amway? Curioso, eu também, mas não fui tão fundo como tu...

Petrus Portilho disse...

Maximo, a verdade é uma só, você já deve ter visto aquele documentario "Além do cidadão Kenny" pois é, quem viu esse documentario sabe que o poder que a Globo tinha e tem, conseguiu fazer o Brasil chorar, não pela comossão do final de semana, mas porque o Ayrton era a galinha dos ovos de ouro da emissora, ele era muito bom, acima da média, mas o Marketing em cima dele foi extramamente agressivo, e o resultado todos vimos no seu enterro, realmente comovente devido ao investimento da Globo nos 10 anos anteriores à sua morte.Eu não chorei, mas me afundei em livros, revistas, videos sobre o cara, não me arrependo pois ele é e sempre vai ser um exemplo de trabalho duro, e eu gosto disso, agora idolatrar o cara eu acho errado demais, só Deus merece isso. Abraço meu caro.

Felipe Maciel disse...

Não considero algo tão banal, afinal foi a morte de um dos maiores esportistas brasileiros, quem sabe o maior. Mas, com certeza, muitos tratam-no como um deus, o que é um equívoco. Foi muito prazeroso vê-lo correr porque pilotava excepecionalmente bem, mas deus já é demais.

Rodrigo disse...

Chorei...no alto dos meus 11 anos. Até pq, era meu ídolo máximo...

Mas não pelo endeusamento. Sim por perder alguém q eu admirava. Assim como choram os fãs de um astro do rock que morre. Uma pena.

Ótimo texto!